A derrota da Seleção Brasileira para a Seleção Francesa serviu como gatilho para um velho debate que insiste em dominar o noticiário: a dependência de Neymar. Bastou o segundo gol francês, no Gillette Stadium, para que parte da torcida recorresse ao passado como solução imediata.
Mas a resposta de Carlo Ancelotti foi precisa — e necessária.
Ao evitar alimentar o tema e reforçar o foco nos jogadores que estão em campo, o treinador italiano demonstra compreender algo que há anos falta à Seleção: a urgência de romper com a dependência de uma única referência técnica.
O ciclo de Neymar precisa ser relativizado
É inegável o peso histórico de Neymar. Trata-se de um dos maiores talentos da geração e protagonista por mais de uma década. No entanto, o futebol de seleções exige mais do que legado: exige disponibilidade, ritmo e continuidade.
O atacante do Santos Futebol Clube não atua pela Seleção desde 2023, após lesão contra a Seleção Uruguaia de Futebol. Desde então, sua ausência deixou de ser circunstancial e passou a ser estrutural.
Insistir em sua convocação neste cenário não é apenas precipitado — é contraproducente para um projeto que tenta se reorganizar.
Ancelotti sinaliza ruptura com o passado
A postura de Ancelotti não é casual. Ao ignorar a pressão externa, o treinador envia uma mensagem clara: ninguém terá espaço garantido apenas por nome.
Esse posicionamento marca uma mudança relevante em relação a ciclos anteriores, nos quais a Seleção frequentemente orbitava em torno de Neymar, limitando alternativas táticas e travando a evolução coletiva.
A observação recente do treinador em jogo entre Mirassol Futebol Clube e Santos Futebol Clube mostra que não há ruptura definitiva — mas há critério. E isso, por si só, já representa avanço.
A Seleção precisa olhar para frente
A reação da torcida em Boston revela mais sobre o passado do que sobre o presente. O clamor por Neymar surge como reflexo de insegurança diante de um time ainda em construção.
No entanto, recorrer a um jogador que não reúne condições físicas ideais e não participa do ciclo atual é uma solução emocional, não técnica.
A Seleção Brasileira precisa formar novas referências, consolidar um modelo de jogo e reduzir sua vulnerabilidade a ausências individuais.
Decisão correta, ainda que impopular
Ancelotti sabe que suas escolhas serão questionadas — faz parte do cargo. Mas, ao manter o foco no grupo disponível, ele protege o processo e evita atalhos perigosos.
Ignorar o debate sobre Neymar, neste momento, não é desrespeito. É planejamento.
E, pela primeira vez em muito tempo, a Seleção parece caminhar mais pela lógica do coletivo do que pela dependência de um único nome.
Por J. Santos Aiória




