Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) indica que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, em sua maioria filhas, esposas e netas, com média de idade de 48 anos. O levantamento destaca que o trabalho de cuidado, embora essencial para a sociedade, permanece não remunerado e socialmente invisível. As informações são da Agência Brasil.
Dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2022, mostram que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas e aos cuidados com outras pessoas. Ao longo de um ano, isso representa mais de mil horas de trabalho não pago.
Segundo a pesquisadora Valquiria Elita Renk, professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR e uma das autoras do estudo, essa sobrecarga afeta diretamente a trajetória educacional e profissional de mulheres e meninas. Muitas interrompem estudos ou deixam o mercado de trabalho para cuidar de familiares.
A pesquisa ouviu 18 mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e de Santa Catarina que cuidam de idosos, doentes ou pessoas com deficiência. Entre as entrevistadas, 68% são filhas, 21% esposas e 5% netas ou irmãs das pessoas assistidas. A maioria tem entre 41 e 60 anos, mas também há presença significativa de mulheres acima de 60 anos e jovens adultas.
O levantamento aponta ainda que 61% das participantes deixaram o trabalho para se dedicar integralmente ao cuidado, situação que atingiu todas as agricultoras entrevistadas. Relatos indicam cansaço, solidão, exaustão emocional e ausência de reconhecimento social ou previdenciário.
Políticas públicas ainda são limitadas
O estudo ressalta que alguns países já adotam políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e na Dinamarca, por exemplo, assistentes domésticos recebem pagamento municipal. França, Áustria, Alemanha e Holanda também oferecem formas de custeio. No Reino Unido e na Irlanda, há compensação financeira pela perda de renda durante o período de assistência familiar.
No Brasil, a Política Nacional do Cuidado foi instituída no fim de 2024, mas ainda está em fase de implementação. A pesquisadora defende que, além de eventual remuneração, é fundamental o reconhecimento social do cuidado como trabalho, inclusive com possibilidade de contagem desse período para fins de aposentadoria.
Na América do Sul, o Uruguai já adota legislação que permite às mulheres se aposentarem mais cedo conforme o número de filhos.
Geração “sanduíche” e mudança cultural
O estudo chama atenção para a chamada “Geração Sanduíche”, formada por mulheres que acumulam emprego formal, gestão da casa e cuidado simultâneo com filhos e pais idosos. Para as autoras, a divisão desigual das responsabilidades domésticas está ligada a fatores culturais profundamente enraizados.
A pesquisa aponta a necessidade de mudança estrutural, com educação voltada à divisão mais equilibrada das tarefas entre meninos e meninas desde a infância. Casos recentes no Judiciário brasileiro que reconhecem compensações financeiras a ex-esposas pelo tempo dedicado ao cuidado dos filhos são vistos como sinais iniciais de transformação.
O trabalho também é assinado pelas pesquisadoras Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia e reforça que o cuidado sustenta a dinâmica social e econômica, embora permaneça majoritariamente invisível e concentrado nas mulheres.










