Especialistas do setor de petróleo e entidades representativas afirmam que aumentos considerados abusivos no preço dos combustíveis podem estar relacionados à perda de controle estratégico do Estado sobre a cadeia de distribuição após a privatização da BR Distribuidora, antiga subsidiária da Petrobras. As informações são da Agência Brasil.
Segundo analistas ouvidos pela Agência Brasil, a venda da empresa reduziu a capacidade do governo de intervir no mercado em momentos de instabilidade. Em alguns postos de São Paulo, há relatos de gasolina sendo vendida por até R$ 9 por litro, mesmo sem reajustes equivalentes nas refinarias.
Para especialistas, o fim da estrutura verticalizada da Petrobras — que abrangia desde a produção até a distribuição de combustíveis — deixou o mercado mais vulnerável a aumentos de preços nas etapas finais da cadeia.
Entidades apontam margens elevadas na revenda
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares, alertou que o aumento nos preços nas bombas não acompanha necessariamente os valores praticados pelas refinarias.
Já a Federação Única dos Petroleiros afirma que distribuidoras e revendedoras têm elevado os preços de forma desproporcional, utilizando como justificativa a tensão geopolítica provocada pelo conflito no Oriente Médio.
De acordo com o coordenador-geral da entidade, Deyvid Bacelar, os aumentos aplicados na revenda podem chegar a cerca de 40% no preço final pago pelo consumidor.
Especialistas defendem papel estratégico do Estado no setor
Para representantes do setor, a privatização de subsidiárias como a BR Distribuidora e a Liquigás reduziu a capacidade da Petrobras de adotar políticas de preços diferenciadas.
Segundo Geraldo de Souza Ferreira, professor de Engenharia de Petróleo da Universidade Federal Fluminense, a presença de uma empresa pública em diferentes etapas da cadeia produtiva permite maior capacidade de intervenção estatal.
Ele ressalta que o petróleo e seus derivados são produtos estratégicos para a segurança energética e para o funcionamento de diversos setores da economia.
Vibra Energia registra lucro após aquisição
Após a privatização, a antiga BR Distribuidora passou a se chamar Vibra Energia.
A empresa informou lucro líquido de R$ 679 milhões em 2024. Em comunicado, o CEO Ernesto Pousada afirmou que os resultados demonstram crescimento consistente das margens e capacidade operacional da companhia.
Privatização ocorreu durante governo Bolsonaro
A Petrobras iniciou o processo de venda da BR Distribuidora em 2019, durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro. A privatização total foi concluída dois anos depois.
Na época, a direção da Petrobras defendia que a estatal deveria concentrar suas atividades na exploração e produção de petróleo e gás, deixando o setor de distribuição para a iniciativa privada.
A operação foi realizada sem necessidade de autorização do Congresso Nacional do Brasil, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 5624, que permitiu a venda de subsidiárias de empresas estatais sem aprovação legislativa.
Governo adota medidas para reduzir impacto dos preços
Para reduzir os efeitos da alta dos combustíveis, o governo federal adotou medidas como a redução das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, diminuindo o preço em cerca de R$ 0,32 por litro.
Além disso, foi editada a Medida Provisória nº 1.340, que autoriza o pagamento de uma subvenção econômica adicional de R$ 0,32 por litro para a comercialização do combustível.
Somadas, as medidas reduzem em cerca de R$ 0,64 por litro o impacto da variação do preço do petróleo no bolso do consumidor.
O governo também criou uma sala de monitoramento do mercado de combustíveis para acompanhar as condições de comercialização dentro e fora do país e avaliar possíveis ações para garantir o abastecimento e a estabilidade de preços.




